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Ansiedade e Insegurança no Brasil do Real

 

por Renato Bock

Cidadãos de mais de 30 anos devem recordar-se da aflição constante a qual éramos submetidos durante as já longínquas décadas de 1970 e 1980. Recebíamos nossos salários e corríamos ao supermercado para fazer a "compra do mês". Comprávamos tudo que podíamos com a quantia que nos vinha às mãos pois, no dia seguinte, nosso dinheirinho valeria por volta de 2% menos. Se esperássemos uma semana para fazer consumir, compraríamos cerca de 15% menos do que no dia em que recebemos o pagamento.

A partir da década de 1990 tudo mudou. Vieram os planos de estabilização da moeda ancorados na globalização e na cartilha do consenso de Washington. Ao invés de "compra do mês", passamos a considerar altas taxas de juros, privatizações, arrocho fiscal, superávit primário e liberalização do cambio. Com as medidas vieram também a esterilidade da economia e o aumento do desemprego. Na década de 1980 vigoravam taxas em torno de 8% enquanto que, para o fim da década de 1990, já se mediam taxas que praticamente dobravam esse índice para as zonas urbanas. O emprego decresceu e a qualidade depreciou.

O percentual de trabalhadores empregados com carteira assinada caiu de 53,74% em 1991 para 46,36% em 1997. Em contrapartida, os trabalhadores por conta própria cresceram, no mesmo período, de 21,89 para 24,93% da mão-de-obra, enquanto os empregados sem carteira assinada passaram de 23,18 para 26,08% segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Hoje, em 2004, o desemprego beira os 18% em algumas das regiões metropolitanas brasileiras enquanto que a Inflação pode não passar dos 8% ao ano. Os juros a 16,25% ao ano asseguram estabilidade monetária e, ao mesmo tempo, desemprego e ansiedade tanto em trabalhadores como nos empresários.

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) publicou um estudo no qual concluiu que a ansiedade e a insegurança econômica tomam conta do Brasil e do mundo. Nosso país obteve resultados insatisfatórios no que diz respeito à segurança de salários, possibilidade de emprego, proteção ao emprego, e satisfação e estabilidade do trabalho. Segundo a OIT "A insegurança de rendimento, entendida como irregularidade nos pagamentos, quebra de acordos, tendência de colocar empregados de folga sem salários, etc, é forte no Brasil. Nas zonas urbanas do país, 51% dizem não ter renda suficiente para cobrir suas necessidades na área de saúde."

Esse é o custo da inflação baixa. Será que vale o trade off que estamos fazendo? Vale o sacrifício para manter a inércia inflacionária dentro das metas do FMI? Será que valeu trocarmos a ansiedade e aflição relacionadas à desvalorização de nosso salário pela insegurança em relação do recebimento da remuneração?

Depois de 10 anos sem crescimento já começamos a enxergar com ternura visões desenvolvimentistas e nacionalistas como a do ex-ministro Antonio Delfim Neto e do empresário Antonio Ermírio de Moraes. Essas visões envolvem propostas de redução nos juros para promover o desenvolvimento interno, derrubando as taxas de desemprego, aumentando o valor do salário e fazendo o país crescer. Caminhando sobre a mesma linha de análise conseguimos mais facilmente compreender a coligação dos arqui-rivais PT e PL. São os trabalhadores aliados aos empresários na luta por um país menos dependente e mais desenvolvimentista.

Nosso novo paradigma vem da área das finanças. São os financistas que mantém o país atrelado às metas do FMI e dependente do capital volátil de curto prazo empregado nas bolsas de valores. São os insumos produtivos - Capital, representado pelos empresários, e Trabalho, representado pelos assalariados - que se unem para revogar a independência do mercado financeiro com relação ao espaço produtivo.

A proposta do presidente Lula é de retomar um pacto social para tentarmos o crescimento sem perdermos na inflação e ao mesmo tempo tentarmos controlar a inflação sem prejuízo no desenvolvimento. Um pacto que una empresários e trabalhadores na construção de um país economicamente mais independente e socialmente mais equilibrado e seguro.

* Renato Bock é Latino-americano, brasileiro, paulistano, economista formado e pós-graduado pela PUC-SP.
E-mail: r.bock@uol.com.br