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Quando
eu tinha dez anos via n'O País, que era o jornal que se comprava em
casa, uma seção charadística por D. Ravib, onde havia sempre um enigma
pitoresco com figuras de animais.
O zé-povinho tomava-as
como palpite para o jogo do bicho. Comecei a me interessar pela
decifração daqueles enigmas e foi assim que me iniciei no passatempo
das charadas, passatempo dos mais úteis, pois ensina muita coisa à gente.
Por minha parte confesso que aprendi muito, e continuo a apreender agora
que sou um aficionado das palavras cruzadas.
Naqueles dias não
existiam ainda livros como o excelente Vocabulário do Charadista, de
Sylvio Alves, e eu, por causa das charadas d'O País, li o dicionário
de morais de cabo a rabo, organizando para meu uso próprio uma espécie
de calepino charadístico.
Figurei na seção
de D. Ravib como concorrente ao prêmio mensal ( nunca o consegui! A
turma era forte demais para mim) e como autor de charadas. Arranjei
um pseudônimo metido a engraçado que era Comiguenove, à imitação de
um certo Eurico Silva, que se assinava Eucasolivri era anagrama de Eurico
Silva; Comiguenove não era anagrama de coisa nenhuma.
Por sinal que esse
Eurico Silva tinha muito espírito e fazia versos. Quando, no governo
de Campos Sales ( a febre amarela era epidêmica no Brasil ), fomos visitados
pelo Presidente da Argentina, o General Roca. Eucasolivri comentou a
visita oficial nesta quadra lapidar:
Se a febre amarela ou a boca,
Julgando-o qualquer intruso,
Fica a Argentina sem Roca,
E o Campo Sales confuso!
Como disse atrás,
hoje sou aficionado dos problemas de palavras cruzadas: todos os Domingos
procuro decifrar o problema para veteranos ou intermediários do Correio
da Manhã, decifro os da publicação, da editora Pongetti fundada pelo
saudoso amigo Rogério e seu irmão Rodolpho, e os da de Sylvio Alves.
Não me interesso pelos problemas para novatos. Gosto de quebrar a cabeça
nas dificuldades, mas só nas dificuldades que podem ensinar alguma coisa
útil. Detesto problemas que só se resolvem com o auxílio de vocabulários
especializados, problemas com "a décima letra do alfabeto árabe", ou
" sexto mês dos hebreus", ou um sub - sub - afluente de um riozinho
do Camarão... Coisas assim. Acho que os bons cruzadistas devam prestar
a atenção nos distrair - nos com dificuldades que valham a pena. Por
exemplo, ensinando que o " rodízio em que se reúnem as varetas do guarda
- chuva " se chama " noete", que o passarinho que foi tirado do ninho
se chama " ninhego", etc.
A esse aspecto
as palavras cruzadas serão utilíssimas aos brasileiros, que costumam
ignorar os nomes das coisas ( os portugueses sabem! ). Brasileiro não
sabe os nomes das plantas nem das flores, e qualquer objeto chama "coisa",
"troço", "negócio".
Em resumo leitores,
gosto de decifrar palavras cruzadas para descansar o espírito e aprender
o nome das coisas.
Manuel Bandeira in Poesia Completa e Prosa, Editora
Nova Aguilar, página 663 |